tão simples quanto
01/04/2013 15:59

Crédito: Thinkstock

- Amor, no que você tá pensando?
- Em nada.
- Ah, fale.
- Em nada, Marcos.
- Ah, por que não quer contar?
- Tou pensando no meu ex-namorado.
- Hahahaha. Tou falando sério.
- Eu também, Marcos.
- Ah, larga mão. Falaí, o que que passa nessa sua cabecinha linda?
- Tou pensando em como o Alberto era muito mais gostoso que você.
- Não quer falar não fala, não precisa ficar inventando história.
- ...
- Pô, custa contar em que você tá pensando?
- Não.
- Então conta.
- Essa sua camisa é horrorosa.
- Duvido que era nisso. Fala a verdade.
- Tou pensando em como te matar, te enfiar num saco e jogar num rio.
- Hahaha, acordou engraçadinha hoje. Sério, em que você tá pensando?
- Em nada, Marcos. Em nada.
- Tá bom, não fala então. Quer sorvete?

Feliz dia da mentira pra você também.

18/10/2012 13:15


Fonte: Thinkstock

Todo mundo tem o direito de se sentir bonita. Mesmo que tenha cinco ou cinquenta quilos a mais. Ainda que tenha rugas ou que o sorriso esteja amarelado.

Eu assisto às novelas antigas na televisão e me pergunto quando foi mesmo que todo mundo resolveu que é preciso ter dentes mais brancos que a neve da Antártida pra ser bonito. Acredite, as mocinhas de novelas de 20 anos atrás sorriam amarelada e tortamente e os mocinhos gostavam delas mesmo assim.

Você é bonita mesmo com a sobrancelha e as unhas por fazer. É bonita com as axilas escurecidas. Até isso: você é bonita peluda. De cabelo enrolado. De cabelo branco. Todas somos.

Eu faço dieta desde os 14 anos. Se você é magra, talvez não entenda, mas é muito difícil passar todos os dias da sua vida controlando o que você come. Não que eu realmente faça isso, mas é o que eu deveria fazer se quisesse “manter o peso” – entenda: manter o peso na faixa que a nutricionista considera saudável. Não tenho dificuldade em ficar cinco quilos acima disso. Eu sou assim.

Se eu aceitasse meu corpo, ia cortar boa parte do drama da minha vida. Tenho toda essa dificuldade, mas, em algum lugar aqui dentro de mim, eu sei que eu sou bonita.

Então eu decidi fazer uma coisa diferente antes de me aceitar: aceitar os outros. Porque a gente insiste que a culpa é da mídia e seu padrão de beleza cheio de exigências. É verdade: se humanos de um futuro remoto decidissem avaliar os antepassados embasados nas figurinhas de uma revista feminina, diriam que todo mundo era gostoso e de sorriso brilhante. Mas por que a gente cutuca a amiga pra mostrar que a moça ao lado, cheia de celulite, está usando shorts? Por que a gente diz, entre risos, “opa, a autoestima dessa aí tá alta”? Coisa mais bonita desse mundo: mulher que acha que tá abafando mesmo acima do peso.

Todo mundo tem direito a se achar bonita. Até quem você acha feia.

31/08/2012 17:20

Na falta de algo melhor pra fazer, tava ali me queixando da vida. Eu tenho dessas, sabe? Reclamar. Ele quis saber dessa saudade que eu sentia.

Eu queria poder dizer que é a sensação do tempo perdido, dos anos que foram e não voltam mais; seria mais fácil se conformar. Só que não é. É essa vontade de sentir tudo de novo, amplificado. É essa saudade do tempo em que os dias eram ruins de comer jiló frio ou lindos de ver arco-íris, mas nunca era só mais um dia atrás de outro dia atrás...

Existem lugares em que você não deve encostar se não quiser se machucar. Eu tenho essa saudade de me enfiar em fios desencapados, de me esfregar no arame farpado. Só pra poder saber o que há por baixo dessa roupa e dessa pele, e ninguém vai descobrir protegidinho na cama quente.

Acho a idéia de uma lindeza tão grande que, se eu fosse do tipo que chora escondida, ia chorar no banheiro. Mas eu não sou, então choro aqui cortando abobrinha mesmo. Tem esses dias em que parece que falta vida e não sobra mais nada a não ser procurar uma tomada pra enfiar os dedos. Pra ter certeza que é quente por dentro. Pra ver desenlaçar essa briga.

É tanto desejo pra ver tudo em ordem que, quando as coisas se acalmam e a vida fica boa, sobra essa vontade de estragar tudo pra poder começar de novo. Esses dias cogitei tirar meu piercing do nariz, sabe? Porque não tinha mais idade. Eu não sou esse tipo de pessoa. Não quero ser esse tipo de pessoa. Vão dizer que é medo de envelhecer. É medo de esfriar.

Hoje tem sol. Deixa que eu te esquento.

Ilustração: Liber Paz

22/08/2012 15:17

Eu tenho um certo pavor a cabeleireiro, manicure e depilação. Não me julguem.

___

Eu nunca fui frequentadora assídua de salão. Nunca tive sessões semanais com a manicure (porque eu roía unha mesmo), prefiro usar gilete e eu mesma pintava meus relativamente poucos fios brancos. Quer dizer, eu só ia mesmo cortar cabelo, umas duas ou três vezes ao ano. Tenho um certo pânico de tanta mulher junta fazendo coisa como depilar os pêlos do nariz (se você nunca viu essa cena, você é feliz e não sabe).

Pra que, minha gente? Pra que?

Ao mesmo tempo, invejava as mocinhas bem cuidadas e essa paciência que nunca terei naturalmente. Decidi: vou tentar. Começou com um corte e, já que eu tou aqui, vamos aproveitar e pintar. Ah, seria legal se o cabelo pudesse sair do preto pro castanho, né? Seria. Cabelo lindo, conta paga, vamos embora.

Na segunda vez, busco a mesma profissional. O princípio básico para ser figurinha fácil no salão é conhecer quem trabalha lá por nome, perguntar do filho e da família de Minas Gerais. Então vamos lá. Comecei me reapresentando: pintei o cabelo com você há dois meses... “Ah, não é você que tem uma filhinha que ia entrar na creche?”. Eu mesma. Conexão feita.

─ Sabe, eu queria clarear meu cabelo um pouquinho mais...
─ Ah, você quer que eu abra a cor, então...

Começou o linguajar específico do metiê; e eu lá sei o que é abrir cor? Eu quero que fique mais claro. Um pouco mais claro. Tá, meu bem. Papelzinho laminado no cabelo, sentindo o calorzinho na nuca. Ela lembra de mim, vai ficar bacana.

Uns quarenta ou cinquenta minutos depois (não é tempo demais? nãããão), vamos lavar e ver como ficou. Hidratação, sento na cadeira, ela começa a secar a mecha da frente. Eu começo a travar.

─ Vai ficar dessa cor, tá?
─ Mas... tá loiro.
─ Ué, mas você disse que queria abrir a cor.
(duvido, eu nem sei o que é abrir a cor!)
─ Loiro. Loi-ro. Não. Não. Loiro. LOIRO!

Foi isso que eu consegui dizer, em meio a umas engasgadas. Toda aquela vibe Quero Ser John Malkovich (tem o vídeo ali embaixo se você não lembra; substitua "Malkovich" por "Loiro" e você terá uma boa noção da cena). Existem uns 9 mil tons de marrom/castanho no mundo, mas se você chegar no salão e disser que quer clarear um pouco, vão te deixar loira. É isso. E não adianta que a cabeleireira/colorista lembre da sua filha, saiba que você é do Paraná e tá fazendo dieta. Ela não lembra que você odeia loiro. Odeia mechas. Odeia aquele cabelo que agora você tem que chamar de seu.

Passei na farmácia e comprei um tonalizante. Devo aparecer no salão daqui a uns seis meses, pra tirar só as pontinhas.

___

Por outro lado, já consegui ir à manicure duas semanas seguidas. Estou orgulhosa.

15/05/2012 14:07

O guarda-roupa abarrotado e uma constatação: não tenho roupa. E não é que eu não tenha o que vestir num evento específico que exija um traje mais elaborado. Não tenho roupa pra sair de casa. Pra comprar aspirina na farmácia e buscar a filha na creche.

Mas como, se o armário tá cheio?
<tipo de pergunta que namorado/marido faz; mulher nenhuma perguntaria isso, porque, sim, compreendemos>

Fonte: Thinkstock

Há que se considerar que minhas peças de vestuário englobam, pelo menos, cinco numerações diferentes. Esse negócio de engordar e emagrecer faz dessas: umas calças que a gente guarda pra nunca mais ser manequim 46, outras pra se iludir com a possibilidade de voltar a vestir 38. Ai ai.

Essa é uma metade do problema. O restante do armário tem várias peças eu só usei uma vez. Algumas outras, nenhuma. Essa devia ser a solução pro dilema do que vestir, mas é o problema: a louca das compras.

Criatura mítica que se esconde em grandes liquidações ou lojas aparentemente fantásticas, com o poder de fazer você se parecer com a Beyoncé com qualquer roupa (vale até calça saruel e blusa com manga morcego). Induz a compradora a um estado de transe profundo, provando todas as peças e levando tudo. Tudo. É prima da louca da tequila, aquela que vive nos bares e faz você acordar no outro dia pensando “o que foi que eu fiz” – quando, veja bem, não há nada sensato a ser feito, a não ser ir embora.

Metade do conteúdo do meu guarda-roupa não serve, a outra metade não faz o menor sentido. Tudo culpa da louca das compras. Ou é isso ou as lojas têm espelhos que eu devia considerar comprar pra minha casa.

<suspiro>
Olha, tá puxado.

Letícia Junqueira Letícia Junqueira
    Porque todo mundo adora um luxo, mas algumas coisas deviam ser simples – a vida, por exemplo.
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