Futuro do Pretérito
06/01/2013 20:43

Bem-vindos ao primeiro post do ano, pessoal! Estava buscando um assunto bonito e inspirador para iniciar 2013, mas este ano começou como o outro acabou: com pouca inspiração e muita preguiça (mea culpa). Então lembrei de uma palestra que assisti ano passado a qual, na época, foi inspiradora e falava sobre mudanças (algo que grande parte de nós aspira em inícios de ano).

Foi uma palestra com o executivo (ou ex executivo) Nelio Bilate, "o profissional que trocou a vida de executivo na Nissan por uma carreira mais tranquila". Era esta a "chamada"da palestra. Logo pensei: deve ser mais uma daquelas palestras onde um ser milionário tem um ano sabático e resolve que, a partir daquele momento, só será "semi-milionário"e irá usufruir das verdadeiras riquezas da vida.

Mesmo já tendo formado minha opinião (negativa) sobre o "causo", resolvi comparecer à palestra. Ao chegar, minhas expectativas começaram a se confirmar: achei que devia encontrar alguém meio "Hare Krishna"(não conheço nada deste movimento, uso a expressão para descrever pessoas desapegadas de bens materiais), de pés descalços e tal. E, na verdade, encontro um homem super "estiloso" e elegante. Pronto: eu estava certa, aquela coisa de "larguei tudo e agora sou feliz" só podia ser história pra boi dormir.

Mas, felizmente, minha impressões estavam erradas e o discurso dele não foi história para boi dormir. Ele realmente não é mais um "alto executivo"(seja lá o que isso significa). Ganha menos, mas o suficiente para continuar tendo uma vida muito confortável, se desfez do muito supérfluo que possuia e reencontrou coisas que realmente gostava (algumas que sim, o dinheiro podia comprar).

Ele contou como se preparou para a mudança e, como líder, como preparou sua equipe para a ausência dele. Falou algo que me chamou muito a atenção: "Para poder voltar, é preciso saber sair". Acho que isso se aplica a tantas esferas da vida. Quantas vezes fechamos portas e rompemos de vez, quando a nossa vontade é só dar um tempo!? Como sabemos o que o futuro nos reserva e se não vamos voltar pra um lugar onde juramos que jamais voltaríamos a pisar!?

No final da palestra, alguns de seus ex liderados (que estavam na palestra) foram abraçá-lo de uma forma tão sincera e calorosa que percebi que ele realmente soube sair. Então, este ano, desejo muitas mudanças, muitos encontros com o que realmente é importante, mas principalmente que, se decidirmos sair, saibamos fazê-lo, para poder voltar e receber abraços calorosos.

13/11/2012 14:49

“A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos
que ela não existe” (Allá Bozarth-Campbell).

“Às vezes, quando sentimos a falta de alguém, parece que o mundo inteiro está vazio de gente”
(Lamartine).

Este mês faz um ano que meu avô faleceu. Neste tempo, nunca quis escrever sobre isso, mas hoje me deu saudade e vontade.

Lembro que, na época, fui uma das que menos se “emocionou” durante o velório. Não gosto daquilo (sei que ninguém gosta), mas não sei até que ponto é psiquicamente saudável e se auxilia no processo do luto aquele ambiente entorno do falecido.

Sei que o funeral é um ritual que existe desde a pré-história . Desde os “tempos das cavernas”, há a preocupação com este processo. Há registros de que o homem mais primitivo já sepultava os seus mortos e realizava celebrações com flores, alimentos e outros utensílios.

Também sei que, em situações de transição, os rituais são importantes para compreendermos as mudanças. Assim como uma cerimônia de casamento possui um ritual de celebração com trocas de alianças, que marca simbolicamente a condição de solteiro para a nova condição de casado, o funeral também possui rituais de celebração.

As cerimônias e os rituais do velório e sepultamento, mesmo sofrendo variações de cultura, religião ou costumes familiares, são uma maneira de compartilhar a passagem da vida para a morte, de socializar a dor e iniciar um processo de desvinculação para os familiares - conhecido como luto. Mas não entendo por que este ritual precisa ser tão longo e doloroso.

Há estudos no campo da antropologia que dizem que a ausência de rituais de passagens podem dificultar a compreensão e a adaptação a novas fases da vida. Acho que isso faz todo o sentido, mas ainda acho que poderíamos viver o ritual do funeral de forma mais “bonita”, afinal se somos parte da natureza, a morte deve ser o meio mais sublime de nos integrarmos a ela novamente.

Enfim, cada ser humano é único e viverá a dor da perda da forma que conseguir. Que bom que sinto saudade de meu avô, significa que ele deixou boas lembranças e nós continuamos aqui,“cada um sabendo da dor e da delícia de ser o que é”.

23/10/2012 17:34

Ontem, devido ao número superior ao normal de alunos na academia, percebi que o projeto verão voltou a fazer parte do calendário da “população”. Eram filas nos aparelhos e o assunto girava em torno das férias de verão e da pressa na eliminação das gordurinhas para que estas não se tornem o grande atrativo nos modelitos praianos.

Esta preocupação “em massa” me fez lembrar um livro que li na faculdade: “O corpo como capital”, organizado pela professora e antropóloga Mirian Goldenberg. Este livro reúne o trabalho de oito antropólogos que analisam a especificidade da construção social do corpo na cultura brasileira. Os autores realizaram entrevistas e observação participante em locais estratégicos para refletir sobre o corpo e deram continuidade às reflexões sobre o papel central que ele está ocupando na sociedade brasileira.

Qual é o valor atribuído ao corpo? Esse valor é o mesmo no Brasil, na França e na Alemanha? O que homens e mulheres pretendem ao buscar a boa forma física? Através de pesquisas, Mirian Goldenberg descobriu que o corpo considerado, culturalmente, belo é um dos bens mais valiosos e cobiçados pelos brasileiros. Este deve ser sempre sexy, jovem, magro e em boa forma. Um corpo conquistado por meio de um enorme investimento financeiro, muito trabalho e uma boa dose de sacrifício.

Ao analisar algumas das questões da pesquisa, é claramente perceptível a recorrência da categoria "o corpo" nas respostas femininas e masculinas. Por exemplo, ao perguntar às mulheres: O que você mais inveja em uma mulher? Elas responderam: beleza em primeiro lugar, o corpo, em seguida, e inteligência em terceiro lugar. Quando os homens são questionados: O que você mais inveja em um homem? Tem-se como respostas: inteligência, poder econômico, beleza e o corpo.

“Ao contrário do que ocorre em outros países, aqui, o corpo é visto como um capital que oferece prestígio, sucesso e poder”, diz a antropóloga. Enquanto, na França, por exemplo, o destaque é dado às roupas elegantes, no Brasil, elas assumem a condição de um mero acessório para exaltar o corpo da melhor e maior forma possível.

Pode-se dizer que ter "o corpo", com tudo o que ele simboliza, promove nos brasileiros uma conformidade a um estilo de vida e a um conjunto de normas de conduta, recompensada pela gratificação de pertencer a um grupo de valor superior. Nossa preocupação com a boa forma tem origens culturais arraigadas, não sendo só o culto ao supérfluo que nos leva a despender tempo e dinheiro com a boa forma do “corpitcho”.

30/08/2012 23:03

Vou confessar: a falta de inspiração e a preguiça são as responsáveis pela demora de um novo post no Futuro do Pretérito. Não bastasse isso, obviamente ingeri grandes quantidades de doces enquanto esperava as ideias chegarem até mim. Também invejei as meninas que são mais disciplinadas que eu e atualizam seus blogs religiosamente. Então percebi que cometi quase todos os ditos pecados capitais no simples ato de falta de atualização do blog. Realmente gente, pecar é muito mais fácil (e mais gostoso) do que o caminho para se chegar à santidade.

Na verdade, o que conhecemos como pecados capitais são vícios que estão presentes no nosso dia a dia. Dizem que o conceito destes precedeu o cristianismo, mas que sua divulgação “em grande escala” deu-se graças ao catolicismo que utilizou a ideia para “educar e proteger” (educar e proteger = controlar, em minha opinião) os fiéis de seus instintos básicos (e o que há de tão errado com nossos instintos?). Para a Igreja Católica há dois tipos de pecado: os perdoáveis, aqueles em que a confissão não se faz necessária, e os pecados capitais, que merecem condenação. Ou seja, a própria Igreja contribuiu para a popularização dos ditos sete pecados capitais. Eles estiveram e permanecem presentes nas obras de muitos artistas, no mundo inteiro. Eu posso afirmar que, com certeza, pratico-os diariamente.

A Gula e a preguiça são os que, de tão presentes, me chamam a atenção quando não são praticados. Também confesso que sou muito apegada a bens materiais e sempre acho que preciso de mais dinheiro do que tenho. Isso se caracteriza como avareza, certo!? Gosto de ter meus desejos saciados, deixando-me dominar pelas paixões. Sim, também cometo o pecado da luxúria. Sentimento de raiva e rancor, a ira? Sim, ainda não consegui perdoar todos que, um dia, julgo terem me prejudicado. Inveja? Ah... Esta deveria ter sido citada junto com a gula e a preguiça. Cometo este pecado diariamente, inclusive invejando os que estão mais perto da santidade que eu. Orgulho/vaidade? Tenho sim, inclusive para defender que acho que a vida tem mais graça se cometermos os sete pecados capitais. Tudo que é proibido é mais gostoso? Então viver no pecado é uma delícia!

Acho as descrições de pecado muito mais alegres do que o que entendemos por divindade. E acho tão bom sermos humanos, por que tentarmos atingir o divino? Gosto das coisas mundanas, do comum. Somos melhores pecando, errando, falhando, somos ótimos sendo humanos. Acho a perfeição chata, pessoas perfeitas demais são sem graça. Eu gosto é mesmo de gente de carne e osso, talvez seja porque eu goste do que é de verdade. E você, está na busca pelo sagrado ou o profano te atrai?

02/07/2012 17:42

As notícias sobre semanas de moda ficam em alta nesta época do ano. Muita novidade é apresentada ao grande público neste período de desfiles. Bom, isso não é novidade para ninguém, até porque vocês acompanharam a cobertura desses eventos aqui no TodaEla. Mas enquanto eu acompanhava as novas tendências, comecei a me questionar: quando a moda tomou esta dimensão que observamos hoje?

O livro “O império do efêmero”, do filósofo francês Gilles Lipovetsky, traz uma análise profunda deste fenômeno. A leitura não é “leve". O autor aborda a questão fazendo uma análise sistêmica do fenômeno, mas para quem gosta do assunto, vale a pena conhecer.

Ele inicia nos falando que o mundo intelectual nunca deu muita atenção à questão da moda. Critica esse fato, pois julga ser impossível analisar a sociedade moderna e pós-moderna sem levar em consideração esse fenômeno. A moda está por toda parte: na rua, na indústria, na mídia, mas ainda são poucos que a estudam profundamente. Afinal os intelectuais ainda a julgam como uma questão superficial. O autor não discorda disso: sim, a moda é superficial e fútil. Mas quem disse que essas características são necessariamente negativas!? Como compreender a sociedade em que vivemos se evitamos falar das características que a marcam!? Apesar de tão fútil e frívola, como a moda resistiu ao tempo e tornou-se parte da história da humanidade? Esse fenômeno não pode ser identificado como simples manifestação das paixões vaidosas. A moda é uma instituição excepcional, altamente problemática uma realidade sócio-histórica característica do ocidente e da própria modernidade. A moda é mais do que o símbolo das ambições das classes, representa a saída do mundo da tradição. É um espelho onde se torna visível aquilo que faz nosso destino histórico mais singular: a negação do poder imemorial do passado tradicional, a febre moderna das novidades, a celebração do presente social.

Para o filósofo, a moda não é mais um enfeito estético, um acessório decorativo da vida coletiva; é sua pedra angular. A moda terminou estruturalmente seu curso histórico, chegou ao topo de seu poder, conseguiu remodelar a sociedade inteira à sua imagem; era periférica, agora é hegemônica. O livro esclarece essa ascensão histórica da moda, compreende o estabelecimento, as etapas, o apogeu do seu império.

Assim, a moda está nos comandos de nossas sociedades; a sedução e o efêmero tornaram-se, em menos de meio século, os princípios organizadores da vida coletiva moderna. Isso anuncia o declínio de nossa sociedade? De forma alguma, o autor defende exatamente o contrário: além das “perversões” da moda, ela detém um poder globalmente positivo tanto em relação às instituições democráticas quanto em relação à autonomia das consciências.

Aline Michelin Bonafini Aline Michelin Bonafini
    Costuma ser relacionado às noções de hipótese, incerteza e irrealidade. Psicóloga, que tem mais dúvidas do que certezas, que acredita no ser humano, na simplicidade e no agora
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