Asclépio e Outras Drogas
08/10/2011 02:44

"A dose certa diferencia um veneno de um remédio." (Paracelso – 1538)

Muito antes da chegada dos europeus às Américas, era popularizado em populações pré-colombianas da América Central, um produto derivado da fermentação e da desidratação térmica das amêndoas do cacau. Esse produto foi o precursor dos chocolates. Outrora símbolo de requinte e nobreza, o chocolate é, hoje em dia, uma das iguarias culinárias mais difundidas e apreciadas do mundo.

De alguns anos para cá, diversos estudos científicos têm tentado apontar novas descobertas sobre o impacto do chocolate sobre a saúde do homem. Infelizmente (ou felizmente, para os apreciadores), a maioria das boas descobertas se refere apenas à categoria de chocolates amargos.

Têm sido comprovados diversos pontos positivos sobre a ingestão de chocolate. Pontos positivos estes que vão desde a melhora do colesterol até redução atividade coagulante do sangue, passando por efeitos interessantes na pressão arterial, na função do revestimento de vasos sanguíneos e alterações em funções de áreas cerebrais responsáveis pelo humor.

Gordura do bem

Os chocolates são ricos em três tipos de gorduras: ácido oléico, ácido esteárico e ácido palmítico.
O ácido oléico é um dos componentes do popular Ômega 9. Esse composto participa de diversas reações do nosso metabolismo, bem como ajuda na produção de hormônios e na regeneração de tecidos que sofreram alguma lesão, como a queimadura solar. Por este terceiro motivo, esse óleo é amplamente empregado na produção de bronzeadores e cremes pós-sol, auxiliando na recuperação das queimaduras.

O ácido esteárico, depois de ingerido, é transformado ácido oléico. Por isso, gera os mesmos efeitos deste, além de praticamente não participar da produção do colesterol.

Sobre a terceira gordura, o ácido palmítico, sabe-se que tem a capacidade de aumentar os níveis de colesterol no sangue. Entretanto, o chocolate amargo contém outras substâncias que ajudam a modular o colesterol, tornando essa característica do ácido palmítico praticamente irrelevante.

Faz bem para o coração

Um dos efeitos protetores da saúde mais relevantes do chocolate é devido à presença dos chamados flavonóides. Estas substâncias têm a capacidade de promover proteção cardiovascular. Fazem isso através da redução do chamado estresse oxidativo, que são reações químicas lesivas ao corpo humano e envolvidas na origem de diversas doenças, como a aterosclerose, a doença de Parkinson, a doença de Alzheimer e outras.

Essa propriedade dos flavonóides explica algumas revelações de estudos japoneses e italianos que mostraram que os chocolates amargos têm a capacidade de reduzir os níveis sanguíneos do “colesterol ruim”, o LDL, e de aumentar os níveis do HDL, o “colesterol bom”.

Alguns estudos europeus apontaram uma descoberta em comum: o chocolate amargo aparentemente consegue reverter os danos às paredes das artérias e veias promovidas pelo cigarro e pelo envelhecimento. Além disso, mostraram que corações transplantados têm uma melhora de sua própria vascularização quando adicionada a ingestão destes chocolates à dieta.

Quanto à pressão arterial, não se sabe ao certo se os efeitos observados refletem um fato científico. Mesmo assim, vale citar que trabalhos apontam para uma discreta diminuição na pressão arterial de pessoas que comem chocolate amargo diariamente. O estudo mais relevante nessa área evidenciou que, dias após a suspensão da “dose diária” de chocolate, a pressão dos pacientes voltou a aumentar.

A coagulação sanguínea é o importante evento que promove a parada de sangramentos após lesões como cortes ou lacerações. Entretanto, algumas disfunções promovem a formação de coágulos dentro dos vasos sanguíneos. Isso é observado em situações como o infarto do coração e o AVEi (Acidente Vascular Encefálico isquêmico, também conhecido como de AVC isquêmico).

Foi comprovada a capacidade dos flavonóides de reduzir, ainda que de forma modesta, a tendência do sangue a sofrer coagulação. Também auxiliam no funcionamento das células do revestimento interno das veias e artérias. E a boa noticia é que o chocolate amargo é uma das fontes alimentares mais ricas nestes componentes.

Corpo e Mente

É falando de aminoácidos que entramos em um dos aspectos mais interessantes da composição química dos chocolates. O chocolate contém quantidades relevantes de triptofano, fenilalanina e tirosina. Estes aminoácidos são precursores da produção das substâncias que promovem a comunicação entre as células do cérebro: os neurotransmissores.

A produção da adrenalina (neurotransmissor do estresse) e da dopamina (neurotransmissor do prazer) ocorre a partir de componentes que podem ser encontrados no chocolate. Assim, fica clara a associação do chocolate aos seus efeitos positivos no humor.

Porém, é nesse mesmo âmbito que se deve ressaltar a capacidade dos efeitos negativos destes neurotransmissores. Pessoas com enxaqueca tendem a ter suas dores desencadeadas com consumo de chocolate. E, pessoas que tomam os antidepressivos conhecidos como IMAO podem ter sua pressão arterial aumentada.

O chocolate também contém derivados das chamadas xantinas. Entre eles, o mais importante é a cafeína. A cafeína, que nada difere da encontrada no café e em alguns chás, fica responsável por alguns efeitos menos relevantes percebidos em algumas pessoas ao comerem chocolate, como fazer o coração bater mais rápido e promover relaxamento do esfíncter do esôfago, piorando os sintomas de Doença do Refluxo Gastroesofágico (vulgo refluxo), como azia e regurgitação.

Só se for amargo

Os trabalhos científicos nessa área utilizaram amostras pequenas de pacientes, mas já apresentam resultados interessantíssimos. Se esses resultados são de fato aplicáveis à realidade, ficará para trabalhos futuros comprovarem.

Aos amantes do chocolate ao leite e do chocolate branco, as notícias não são tão interessantes. Praticamente nenhuma das informações citadas se aplica a eles, além de que são ricos em calorias. E, senão pelo prazer da degustação, quase não apresentam vantagens sobre outros alimentos. Ao menos, no que se refere a vantagens nutricionais.

Já se sabe que praticamente todos os resultados benéficos do chocolate para a saúde se restringem ao chocolate amargo e, em menor escala, ao chocolate-meio amargo. Por esse motivo, não é possível a extrapolação das conclusões para os chocolates ao leite, branco e outras variedades.

Além disso, não pode ser deixada de lado a importância do valor calórico destas iguarias. Os estudos que mostraram resultados relevantes trabalharam com uma dose diária de 100 gramas de chocolate amargo, que têm, em média, 500 kcal e promovem um aumento significativo de peso se a ingesta não for compensada com exercícios físicos (algo em torno de meio quilo por semana).

Precisa ficar claro que a maioria dos benefícios sugeridos até o momento está ligada à base dos chocolates: o cacau. E, quanto maior a concentração dos derivados do cacau, melhores serão os efeitos do chocolate para a sua saúde. É essa concentração que difere o chocolate amargo (alta concentração de derivados do cacau) do chocolate ao leite (baixa concentração).

Além de suas diversas propriedades nutricionais, os chocolates amargos são capazes de despertar sensações únicas e prazeres indescritíveis. Se você aprecia o chocolate amargo, aprecie-o ainda mais pelo seu efeito benéfico à saúde. Agora, se você prefere os chocolates ao leite e branco, a minha dica é: ouse! Gostos são aprendidos e aprender a preferir o chocolate amargo vai ser um desafio prazeroso, refinado e com resultados preciosos para sua saúde e bem-estar.

29/09/2011 00:44

O desafio inicial surgiu quando me propus a dizer a que vim. Eu estava decido a simplesmente não dizer. Que meus objetivos ficassem claros a cada texto. E assim seria a primeira postagem, alguma novidade de interesse geral sobre saúde e bem-estar. Nada de introduções ou apresentações. Mas, essa idéia não me agradava. E menos agradável ainda era não saber como me introduzir. Voltando à retórica fundamental, lembrei-me da regra: Quando não souber o que dizer, não diga nada. Lembrei, apenas. Não fez qualquer diferença. Quando me dei conta, esse parágrafo já estava escrito, e era tarde demais para voltar atrás. Não que eu não saiba usar o backspace. Por hoje, escolhi não fazer uso dessa valiosa ferramenta.

Há tempos, eu almejava escrever sobre temas e curiosidades da área médica. A isso, somou-se a oportunidade de criar o ‘Asclépio e Outras Drogas’. Basicamente, aconteceu o que acontece quando vontades encontram oportunidades.

Antes de mais explicações, gostaria de apresentar-lhes o personagem que emprestou o nome ao título deste blog.

Diferentemente de Hércules (um semideus), Zeus (um deus) ou Aquiles (um herói), Asclépio não é tão facilmente classificável. Sua definição se encontra em alguma intersecção entre as categorias deus, mortal, herói e semideus. A mitologia grega o descreve como sendo filho do deus Apolo com a mortal Corônis, que morrera antes do seu nascimento, sendo necessária uma das primeiras cesarianas encontradas em relatos históricos.

Após o nascimento, fora abandonado em uma montanha, onde recebera alimentação de um cão que o encontrara pelo olfato. Esse cão representa os fundamentos do prática médica: seguir o invisível (sintomas) visando chegar a conclusões (diagnóstico), para promover o suporte necessário. Criado por Quíron, o centauro politizado, portador dos dons da caça e da cura, Asclépio cresceu aprendendo os segredos e mistérios da medicina.

As lendas e relatos descrevem diversas curas promovidas por esse personagem mitológico que até hoje representa os almejos da arte médica. Curas estas que iam desde a reversão de cegueiras até procedimentos cirúrgicos, como retiradas de corpos estranhos e drenagem de abscessos. Ninguém sabe ao certo o ponto em que essa rica mitologia se encontra com a realidade. O que se sabe é que a história de Asclépio representa uma bela metáfora das bases filosóficas da medicina.

A profundidade metafórica destes mitos não para por aí. O famigerado caduceu de Asclépio, usado como parte integrante de logotipos como o da Organização Mundial de Saúde, escolas médicas, hospitais, clínicas etc, é composto pelo cajado de Asclépio, no qual se enrola uma serpente. Isso se explica pelas trocas de pele sofridas pelas serpentes. Simboliza-se, com essa analogia, o paciente que, curado pelo médico, deixa ‘sua pele danificada’ para trás, iniciando uma nova fase, agora livre de doença.

Talvez por uma tendência pessoal (de um estudante de um medicina apaixonado pelo que faz), não gosto de entender como uma mera coincidência o detalhe de o deus da medicina ser filho do deus do sol, da luz e das artes. São valores milenares que, talvez suspensos por um tempo, têm encontrado brechas para se reencaixar na formação médica atual.

Ao longo da história, Asclépio passou de deus da Medicina à personificação da filosofia médica, chegando a ser considerado a ‘alma do mundo’, que se responsabilizaria pela coesão, simetria e equilíbrio da Criação. Sinta-se a vontade para chamar isso de saúde.

Esses e muitos outros motivos que ficarão evidentes nas próximas postagens elucidam o motivo de o título deste blog ser ‘Asclépio e outras drogas’. E, se ainda resta alguma dúvida sobre o porquê de eu estar aqui, explico: vim falar dessa medicina. Da medicina que não se restringe a curar doenças. De uma medicina que quer curar pessoas, evitar que adoeçam e ver na pessoa saudável alguém potencialmente ainda mais saudável.

Tendo-se em mente que a saúde não é a mera ausência de doença, que bem-estar é componente essencial do status ‘saudável’, fica compreensível o meu intuito. Uma das ‘curas’ mais memoráveis de Asclépio foi fazer crescer cabelos na cabeça um homem calvo. Não é de hoje que promover o bem-estar é função do médico. E é disso que vim falar.

Dhiogo Corrêa Dhiogo Corrêa
    Deixei os carrinhos de lado para brincar com a lente de aumento. Vencido pelo ímpeto de sanar curiosidades, cresci assim: ocupando-me de questões e exigindo explicações. Sou estudante de medicina, cinéfilo amador e defensor do hedonismo racional.
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